Quem cala não consente

por Julia Duarte | ilustração de capa: Kim Sung Jin

Aviso de gatilho: este texto fala de estupro e violência sexual em geral.

Eu disse não. Ele insistiu e eu disse não. Ele insistiu tanto que pensei que talvez fosse melhor me enganar e acreditar que tive uma relação sexual com consentimento do que dizer não e possivelmente ser forçada. Era melhor ceder do que ser estuprada.
Talvez ele finalmente desistisse. Quem sabe? Eu não sei.

Essa é a culpa que se carrega quando você diz sim ao sentir as mãos suadas e fortes prestes a te forçar.

“Se não vai por amor, vai pela dor”, foi dito através do seu olhar de animal faminto, suas gotas de suor, seu tremor. Preferi ir “por amor”, com medo da dor. O problema dessa “escolha” é que você diz à você mesma que não foi estupro porque você finalmente cedeu. Ninguém te amarrou e mesmo assim você fez. Então a culpa é sua, você pensa. Se eu tivesse negado só mais uma vez talvez ele me respeitasse. Quem sabe?

E ninguém considera estupro.

“Mas pera. Você chupou? Você não gritou? Você fingiu que tava afim?”

O dicionário não considera estupro. O homem – é claro – não considera estupro.
E você passa a se perguntar por que diabos fez algo que não queria, se talvez (quem sabe?!) ele parasse por ali.

O problema dessa “escolha” é que você diz à você mesma que não foi estupro porque você finalmente cedeu. Ninguém te amarrou e mesmo assim você fez. Então a culpa é sua, você pensa.

Quando dizemos que todo homem é um potencial estuprador, estamos dizendo que essa estrutura de poder permite que um homem durma tranquilamente à noite depois de gozar na boca de uma garota que disse “não” vinte vezes. Porque o momento que cedemos é seu livramento de qualquer possível culpa. Afinal, ela disse “sim”.

E se você, por razão de algum privilégio, for esclarecida o suficiente pra um dia se livrar da culpa, vem em seguida outro sentimento – a impotência. Como denunciar o seu abusador, o teu agressor, se ele não te forçou a nada, se você permitiu que ele beijasse seu corpo, se ele diz a si mesmo que jamais estupraria uma mulher? E se ele é “um cara legal” e tem credibilidade?

O mundo pode provar que não foi estupro. E você tem apenas que “lidar com isso”.
No fim, eu não sei o que seria pior. Quando você deixa de se enganar (e dizer que tudo aquilo era tua vontade), você percebe que está sozinha: só você sabe do quanto tem nojo de lembrar.

Quando dizemos que todo homem é um potencial estuprador, estamos dizendo que essa estrutura de poder permite que um homem durma tranquilamente à noite depois de gozar na boca de uma garota que disse “não” vinte vezes.

E eu acredito que a maior parte das mulheres já passou por um abuso velado. O que significa que boa parte das mulheres se arrependem de um sim e se sentem sozinhas, culpadas, impotentes e fracas. E é assim que funciona a manutenção do patriarcado. O homem dorme cultiva uma das maiores necessidades dessa estutura de poder: a mulher quieta e fragilizada.

No fim, cria-se um beco sem saída, onde as opções são:
-A negação: negar a si mesma que você não quis, apesar de ter cedido.
-A raiva: saber que não quis e sentir a enorme impotência de não poder fazer nada em relação a isso.
-A aceitação: achar que não há nada a fazer, afinal, o mundo é assim e tenho que lidar com isso.

E eu acredito que a maior parte das mulheres já passou por um abuso velado. O que significa que boa parte das mulheres se arrependem de um sim e se sentem sozinhas, culpadas, impotentes e fracas.

Não vou dizer que achei uma saída neste beco. Mas acredito ser importante enxergar que as mulheres de todo o mundo passam por isso. E que o fato de um homem ter a coragem de insistir até você ceder (e sabemos que não foi no segundo pedido que isso aconteceu) e mesmo assim gozar tranquilamente, é um sintoma doente da sociedade em que vivemos. Ceder por medo ou cansaço, não.

Não deveríamos ter que dizer “não” quarenta vezes – ou o quanto for necessário para o homem escutar – para sermos respeitadas nas nossas vontades e decisões. Você, eu, que não fomos amarradas mas fomos abusadas, somos também vítimas desse sistema. E se tem alguém que vai nos escutar, seremos nós mesmas.

E não deixemos que nos calem.

Um dia talvez um “não” signifique “não” aos ouvidos dos homens.

Quem sabe?

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Julia estuda Letras, dança, escreve no tempo livre e não tem a menor ideia do que está fazendo na vida
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