Amor não cura depressão

por Raquel Abe

Fui diagnosticada por uma psiquiatra com depressão aos 21 anos, depois de sofrer silenciosamente com os sintomas por uns sete anos. A situação estava se tornando insustentável, e quando me ofereceram ajuda, aceitei. A ajuda partiu de pessoas que me amam, e essa foi a única coisa que eles poderiam ter feito por mim, porque amor não cura depressão. E é somente quando a pessoa que ama sabe disso que ela pode ajudar nesse processo de cura.

Pra início de conversa, a depressão não necessariamente tem uma relação de causa-consequência. É, geralmente, uma grande pilha de pequenas e grandes causas que, juntas, colocam no doente uma espécie de óculos: toda a percepção da vida fica alterada. O mundo se torna um local hostil para se viver. A vida é insossa e os sentimentos são confusos e frágeis – e quando tomam força, são turbulentos e lodosos. A angústia se torna parte do dia-a-dia, e uma das piores partes é que nós não sabemos o porquê. O deprimido sente nada e tudo ao mesmo tempo e isso é incapacitante.

Amar uma pessoa que se encontra no meio dessa areia movediça não é nada fácil. Seja ela seu namorado, esposa, sobrinho, irmã, amiga ou primo. Do lado “saudável” da história, ficamos aflitos e é muito, muito difícil entender como o deprimido pode simplesmente não ter vontade de fazer nada, nem de estar conosco. A depressão é uma afronta ao amor.

Quando eu estava em crise, não queria ir para minha casa. Lá, eu sentia uma pressão imensa em “ser feliz”: acreditava que não poderia “ser feliz sendo infeliz” enquanto estivesse por ali. Me apoiava então, no namorado, que, mesmo desgostoso de me ver daquela forma, me permitia existir autenticamente no meu sofrimento. Não sei, até hoje, o quanto ele entendia a importância da sua companhia naquele momento. Da sua “permissão” para eu ser quem estava sendo. Sei que minha dependência naquele momento o sufocou e exigi dele muito mais do que eu poderia ter pedido, e sou grata, tanto quanto um ser humano pode ser, por ele ter se mantido ao meu lado, mas fui injusta com ele.

Minha dependência fez com que nosso relacionamento demorasse a se desenvolver de forma saudável, mas foi em meio às turbulências que eu percebi o quanto eu precisava de outra ajuda – a profissional. Me lembro com nitidez a primeira vez que eu pensei “preciso de ajuda”.

Minha aula começava às 8h da manhã e terminava as 18h. Eu sai de casa cedo, mesmo com a vontade imensa de me manter na cama – somente com a motivação de não ter que explicar nada a ninguém; Cheguei na faculdade e fumei um cigarro atrás do outro, incapaz de subir para a aula. Um sentimento de “tudo está errado” me tomava e me deixava inerte nos bancos de madeira em frente ao prédio. Finalmente, às 10h consegui subir e entrar na sala. Na hora do almoço, comi sozinha, e passei a tarde desenhando no caderno quando deveria anotar pontos importantes do trabalho.

Saí da faculdade e fui direto para a casa do meu namorado. E desabei em choro. De alívio, por finalmente poder “deixar de viver”. De conforto por saber que ali eu estava segura para me sentir como havia me sentido o dia todo. Ele não entendeu muito o que acontecia, mas assistiu e aceitou meu abraço, interrogativo. E, mesmo que ele não entendesse e apoiasse como dava, eu percebi ali que ele não seria suficiente para resolver meus problemas. Mesmo assim, não tinha forças para procurar tratamento.

Algumas semanas – seguindo este mesmo roteiro que descrevi acima – depois, um parente querido me ofereceu um “check-up” numa psiquiatra que ele conhecia. Não me pressionou. Não disse que eu ‘precisava ir de qualquer forma’ e nem passeou com as palavras em torno de um possível diagnóstico. Foi casual, como se perguntasse se eu queria tomar um café qualquer dia.

Eu aceitei. E foi a melhor coisa que eu fiz na vida até hoje. Mas caso eu não aceitasse, ninguém poderia ter feito nada a respeito. E é neste ponto da história que precisamos falar sobre o amor.

Depressão não tem cura, tem tratamento. Hoje, eu não apresento sintomas na maior parte dos dias, mas sinto seus olhinhos à minha espreita, como que esperando algum fraquejo da minha parte para me atacar e me devorar novamente. Existem pessoas que ficam muito mais tempo se tratando para finalmente colocar a cabeça fora desse lodo, e existem pessoas que simplesmente não conseguirão ter mais que dois dias de ar fresco num ano.

O importante, aos que amam os deprimidos, é entender que isso não depende de vocês – e nem do deprimido ou do médico. É uma questão terapêutica, química. Uma alimentação regular e exercicíos físicos podem ajudar, por exemplo, mas não é certeiro e nem mesmo possível, algumas vezes – Exigir de uma pessoa incapaz de sair da cama que ela levante e vá à academia ou faça compras no sacolão não é justo, apesar de soar “correto”.

O papel de quem ama um deprimido está no amar. Pura e simplesmente. À maneira mais altruísta e racional que o verbo pode ser ‘verbado’; Amar como respeito, como liberdade (mesmo que seja a liberdade de estar na cama mais uma vez). Por vezes, exigir – mesmo inconscientemente – que a pessoa “fique bem” pode ser uma grande refeição para a depressão. Porque deprimidos, só conseguiremos pensar que não somos nem bons o suficiente para “deixar quem nos ama felizes” e que talvez realmente tenhamos falhado nessa missão de ser gente.

Não me entenda mal. Oferecer ajuda é necessário. Mas a pressão para que se melhore é somente danosa – ao menos foi para mim. E, se você ama uma pessoa que tem depressão, entenda que você não precisa ficar ao lado dela. É claro que haverá sofrimento na separação. Mas ser este porto seguro, forte e ‘passivo’ não é fácil e nem é justo. O deprimido entende isso. O mais importante é conseguir ter conversas límpidas, sem floreios e segundas intenções. Se você acha que seu parceiro ou parceira precisa de ajuda profissional, diga isso à ele. Se você acha que não aguenta o tranco da impotência de estar ali, diga isso à ele; Mas não espere que sua ameaça de ir embora o faça procurar tratamento. Não espere que ele procure tratamento ou aceite sua ajuda. Apenas ofereça. Lembre-se que este problema é dele e que o que você enxerga é apenas uma ponta de tudo.

Amor não cura depressão, mas o Respeito ajuda.

 

*Se você está angustiada, ou acredita estar em depressão, veja essa lista de atendimentos gratuitos ou à preço simbólico ou entre em contato com o centro de valorização da vida (ou ligue de qualquer telefone: 141)

 

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Raquel Abe está num relacionamento complicado consigo mesma há 28 anos, curte hackear receitas e quando da na telha escreve umas besteiras pra tentar se encontrar.
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