O mundo tá chato?

por Nathalia Gorga

A frase “o mundo está chato” já era conhecida e voltou a circular pelas redes sociais depois do ocorrido com o apresentador Otaviano Costa, do vídeo show, que foi criticado e defendido por ter feito piada com a cena de discussão entre Marcos e Emily (casal do Big Brother Brasil), na qual o participante colocou o dedo na cara da namorada, brutalmente, e gritou, descontrolado: “escuta, escuta, escuta”; a cena termina com outra participante questionando: “Precisa disso?”. Otaviano ri e responde à última pergunta: “Precisa sim, nóis gosta”. 

Quando três atrizes que estavam participando do movimento “Mexeu com Uma mexeu com Todas” entraram para falar sobre a denúncia de Susllen Tonani e a importância do feminismo, o apresentador pediu desculpas: “Eu mesmo fiz uma brincadeira soando um machismo feio, grosso, desordeiro. Fiquei mal porque ao zelar pela brincadeira do BBB vi o quanto machista eu estava sendo e aparentemente estimular um homem apontando o dedo no rosto de uma mulher, coisa que eu abomino. Todos nós aprendemos com essas mudanças na sociedade“, disse e continuou: “Espero ter deixado claro meu posicionamento. Eu não sou esse ser que abomino, é óbvio que é nojento qualquer situação que coloque uma mulher em uma situação como aquela. A vocês o meu respeito e o singelo pedido de desculpas”, finalizou.

Então, vi algumas pessoas defendendo o apresentador nas redes sociais, com o argumento de que, atualmente, não é mais possível “brincar” sem alguém controlando cada palavra. Alguns falaram que o pedido de desculpas não partiu dele, que alguém da produção havia reparado e resolvido que era melhor orientar Otaviano a se redimir. Minha questão é a seguinte: independente se partiu ou não dele, o importante é que um erro foi percebido e, nesse caso, foi a questão do machismo revestido de senso de humor, pois Marcos estava sendo agressivo com Emily, em um programa de televisão que reproduz a sociedade em uma esfera micro, portanto é algo preocupante e não matéria-prima para brincadeiras, o que muitos não entenderam e não entendem.

ASPA

Agora, falando do que alguns estão sentindo falta, em particular: as piadas também são essenciais, não só para termos um “mundo mais divertido”, mas também para compreendermos o lugar onde vivemos e as pessoas com quem compartilhamos muito mais que espaço, atitudes e opiniões. No artigo A representação do feminino nas piadas machistas e feministas, a autora, Gisele Maria Franchi, explica: “Bastante engenhosas, as piadas exploram algumas técnicas linguísticas como estratégias para que a veiculação de discursos proibidos não seja explícita, o que lhes conferem certa liberdade de circulação. São textos que oferecem boas pistas acerca dos preconceitos e dos tabus vigentes em uma sociedade: se, por exemplo, uma piada que ridiculariza os gays circula, é porque a sociedade, de alguma forma, é (ou, pelo menos, foi) homofóbica.

Se, por acaso, isso for verdade, fico assustada com o quanto ainda alguns são machista e não evoluíram. Falo isso pelos memes que foram criados a partir do caso Marcos Emily, dessa semana, que não vale a pena reproduzir aqui, mas que entram em três classificações: piada que reforça o comportamento “adequado” das mulheres, piada que banaliza a violência contra as mulheres e piada que afirma o comportamento “natural” das mulheres; esses tipos estão detalhados na matéria Machismo disfarçado de humor, de Roberta Gregoli, publicada no Blog Subvertidas.

Os olhos ficam arregalados quando lemos conteúdos desse tipo e, depois, vendo os comentários de risadas, aprovação, compartilhamentos, é a vez da boca, que se abre. Susto, sim, por ainda parecer estarmos vivendo em um século passado, quando o respeito não era um direito para as mulheres.

Outro lado

Mas calma, que há o contraste, o oposto, o resultado de mulheres na comunicação, que é um pouco um remédio para a indignação acumulada e faz a boca voltar ao lugar e os olhos, voltarem a piscar. Um desses “antídotos quase milagrosos” é a campanha #MACHISMONÃOÉBRINCADEIRA, JOSÉS!, idealizada, criada e dirigida artisticamente por Paula Essig Oliveira, que é um respiro.

Não pelo fato de ser leve e fazer rir, muito pelo contrário. Ela é séria e mostra a realidade de um mundo no qual a violência contra a mulher (representada pela diversidade das participantes) também está nas piadinhas, “no mundo mais divertido dos homens”, na descontração espontânea… Em entrevista, Essig falou sobre as motivações da campanha e as inspirações para realizá-la. Confira a entrevista:

Eu, tu, elas: Paula, você acha que os “Josés” (referência ao caso de José Mayer, que assediou a figurinista Susllen Tonani) são capazes de se identificarem como tais vendo a campanha?
Paula: a gente usou uma voz masculina para gerar identificação, para os caras sentirem que estão ouvindo o amigo, para pessoa perceber: ‘Ninguém nunca questionou as minhas desculpas, elas sempre aceitavam’, é um consenso geral que agora é tudo reclamar, ‘mimimi’ e é modinha. O que fizemos é um cala boca: ‘meu enquanto você está dando esse argumentos furados, olha o que está acontecendo. Essa é a cultura que você está disseminando com as piadinhas que considera inofensivas.

Pelo vídeo é perceptível que houve uma preocupação com a diversidade. Qual é a importância, na publicidade, de mostrar isso?
A gente precisava que as mulheres não fossem modelos, que não fosse aquele estereótipo de publicidade. Pedi ajuda para uma amiga e encontramos perfis bem diferentes. O objetivo era representar, principalmente, as brasileiras.

Revista AzMina

Como você e a equipe pensaram nas frases escritas nos rostos das mulheres? E a frase “mundo chato”, por que foi usada?
O redator da campanha é um homem e eu fiz questão que fosse, porque ele está dentro dos círculos da macharada, então ele já conhece. A gente ouve muito essas desculpas, mas entre os homens isso fica pior, porque eles ficam com menos medinho de enfrentar e ficam falando entre eles, para mostrar como são machos, como não estão nem aí e acham frescura das mulheres.  Essa frase foi uma das primeiras que pensamos, porque eu, particularmente, ouço isso 24 horas por dia, tanto dos meus colegas que falam que para fazer campanha legal é só ter uma causa social, quanto das pessoas que falam que o mundo ‘tá’ muito corretinho e ninguém pode falar mais nada. Achamos muito pertinente, porque as pessoas acham que o mundo delas está chato por falar sobre esses assuntos, mas elas não são quem sofrem esses tipos de coisas: elas não são as mulheres violentadas, elas não são os negros que sofrem racismo, elas não estão nas minorias oprimidas pela sociedade, elas não sabem o que é um mundo chato. Elas não estão acostumadas a questionar o que falam, é algo muito egoísta usar esse argumento.

Como você resumiria a campanha em texto?
A campanha é um manifesto das mulheres em relação à banalização do que é a cultura do estupro. As pessoas não têm dimensão do quanto elas colaboram para essa cultura com coisas pequenas, entre aspas, no seu dia a dia. Questionamos o motivo pelo qual as pessoas continuam usando esses argumentos, por que acham que são mais importantes do que mulheres violentadas? Isso tem ligação direta, isso traz uma banalização enorme dessas situações. São coisas pequenas que vão fazer muita diferença e acho que é um primeiro passo importante. A gente vai mudando aos poucos a cabeça das pessoas e elas começam a pensar antes de falar.

Paula também transmitiu uma mensagem sobre a publicidade e sua importância:
O que me inspirou a entrar na publicidade foram campanhas com causas em que eu acredito, porque essa área é vista como um ninho de rato, capitalismo e, parte dela é, mas eu também vejo que cada vez mais as pessoa estão se ligando de como as ferramentas da publicidade são incríveis e podem passar mensagens, podem mudar comportamentos e é exatamente isso que eu quero: mudar comportamentos com o que eu faço, eu quero impactar as pessoas de verdade, não quero fazer coisas só por diversão. Meu desejo é ser alguém na publicidade que faça diferença na sociedade. Então, ter essa como minha primeira campanha, foi um belo começo.

E, para nós, é maravilhoso ter mulheres como Paula Essig na publicidade, tendo espaço para criar e trazer reflexões complexas com outras campanhas tão sensíveis e eficazes em relação ao processo de identificação com o público, o que é representado e o que precisa, de fato, mudar.

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Nathalia: 22 anos, aquariana que gosta de ter muitos peixes em suas águas, o que significa amores, ideias, inspirações, vontades e sonhos… Três paixões: Claudia, Clarice e Cássia. Dois prazeres: ler e conhecer (pessoas, lugares, comidas). Um vício: escrever.
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