O que aprendi rebolando a bunda num aulão do BDNT

Por Karolina Bergamo

Semana passada, recebi inbox duma miga dizendo “miga, olha isso que foda: link”. Abri e me deparei com uma matéria sobre o BDNT (sigla para Bunda Dura Não Treme), um projeto de aulas de dança para empoderar e aproximar mulheres, criado pela Jade Quoi, uma mina foda lá de Curitiba.

bdnt 2

Eu nunca tinha ouvido falar, mas de cara achei a ideia legal. Principalmente por relacionar dança e psicologia. Faço terapia há dois anos e sou uma entusiasta, que vive pregando sobre quão maravilhoso é fazer, e tudo mais. E eu já tava convencida de que o projeto era bem loko. Aí, vi o teaser do documentário (sim, essa maravilhosidade virou um doc) e fiquei tipo: SOCORRO.

Então, antes de prosseguir com a história peço que você, por favor, veja esse teaser…

 

(Abre parênteses) Se você quiser ler mais sobre a história do grupo, quem são as mulheres maravilhosas envolvidas, como tá sendo essa revolução, clica aqui, aqui ou aqui. Minha ideia nesse texto, é apenas contar como foi fazer a aula. (Fecha parênteses)

Pois é, vi o teaser e voltei imediatamente pro inbox da minha miga respondendo apenas:

QUE MARAVILHOSO

QUERO

Para minha alegria, tinha um Aulão agendado em SP pro dia seguinte e eu decidi me inscrever.  Fui… e pude ver, sentir, ser, rebolar, conectar, descobrir e me maravilhar com essa experiência que compartilharei (por pura necessidade que essa iniciativa ressoe) a seguir.

NOTA: Não fui pra aula pensando em ‘cobrir’ o rolê, então esse texto é totalmente subjetivo, baseado na minha vivência individual e não jornalística.

O poder de rebolar sua bunda

giphy (9).gif

Sabe a deusa interior, de quem tanto ouvimos falar? Ela está só esperando você chacoalhar os quadris *sem medo da repressão* pra revolucionar sua percepção sobre você mesma (e sobre a vida) e te mostrar o que é, minha filha, o tal poder.  

O ato de rebolar é um troço tão carregado de julgamento e estereótipo que só de dar aquela mexidinha de bunda mais ousada na balada a gente já acha que vai arder no mármore do inferno, afinal, apenas pecadoras promíscuas, e aquelas famosas mulheres fáceis e sexualizadas (e por aí vai) fazem esse tipo de coisa. “CREDO” nos diz TODO MUNDO.

E eu só consegui atingir essa espécie de ~êxtase do rebolado~, por que o ambiente que a professora cria na aula é propício para isso. “Não tem certo e errado. Seu corpo tem uma vivência e ele vai ressignificar o movimento. Cada movimento é único, não precisa estar igual ao meu”, nos disse Jade.

Jade, inclusive, renderia um texto à parte só para falar dela. Ela é uma professora que dá aula de olhos fechados. Ela dá coragem, incentivo e estímulo sem nos olhar. Parece que ela sabe que os olhos são frequentemente associados ao julgamento, que têm poder de inibição. Então ela nos olha apenas com a alma. A presença dela é também um aprendizado.

Mas, voltando ao remelexo…

O ato de rebolar é um troço tão carregado de julgamento e estereótipo que só de dar aquela mexidinha de bunda mais ousada na balada a gente já acha que vai arder no mármore do inferno, afinal, apenas pecadoras promíscuas, e aquelas famosas mulheres fáceis e sexualizadas (e por aí vai) fazem esse tipo de coisa. “CREDO” nos diz TODO MUNDO.

Gente, sério. Primeiro que rebolar É uma potente atividade física. E vocês não estão entendendo o grau de dificuldade dessa ação. Quando rebolei por alguns minutos, tipo a mina do GIF ali em cima memo (do meu jeito claro, afinal, meu corpo, minhas regras), senti dor nuns músculos que eu nem sabia que existiam.

E o MAIS LEGAL da aula é que tem as horas em que entra #realoficial as parada da psicologia. A dinâmica geral é incrível. Num segundo, cê tá felizona sentindo altas ~vibes~ positivas de quatro no chão rebolando o quadril com dor no joelho, na panturrilha, nos glúteo e até nos pulsos (tudo pela falta de prática, claro), mas felizona.

Pra depois, no próximo exercício ficar no silêncio, com o corpo relativamente parado. Jade pede pra gente fechar os olhos e olhar pra dentro de si. Depois, pede pra gente caminhar pela sala… Primeiro no ritmo automático, aquele que usamos no dia a dia pra ir à padaria, e depois num ritmo livre (com uma música animada de fundo) sentindo sua presença no presente.

Moral da história: o jeito que a gente anda, a postura em que a gente anda, a respiração que a gente tem ao caminhar podem tornar uma ida à padaria horrivelmente insignificante, OU podem nos dar poder pra viver ATÉ MESMO essa ida intensamente. A diferença, no meu caso pelo menos, tá na presença. Ausência de presente deixa a gente vivendo a vida mecanicamente, no piloto automático.

Rebolar livremente a bunda talvez tenha sido uma das maiores quebras de paradigmas que essa aula me trouxe, mas com certeza absoluta não foi a única. Todas as dinâmicas trazidas pela Jade serviram para reavivar minha potência, que vive morrendo esmagada pelos padrões. Espero que ela venha logo dar aula aqui SP toda semana, preu (e as miga paulista tudo) poder fazer isso mais vezes ❤

o jeito que a gente anda, a postura em que a gente anda, a respiração que a gente tem ao caminhar podem tornar uma ida à padaria horrivelmente insignificante, OU podem nos dar poder pra viver ATÉ MESMO essa ida intensamente. A diferença, no meu caso pelo menos, tá na presença. Ausência de presente deixa a gente vivendo a vida mecanicamente, no piloto automático.

Se deixar, meu ímpeto é escrever textão infinito sobre os aprendizados que tirei dessa aula, mas não tenho tempo pra escrever, nem vocês para ler. Termino, então, falando sobre as migas que conheci na aula, que foram tão importantes quanto os exercícios. Queira ou não, todas ali tínhamos nossos medos, nossas ansiedades e obstáculos a serem superados, como a timidez e o receio do julgamento alheio.

No fim, superamos juntas essas barreiras para coletivamente descobrir nossas individualidades. Obrigada pela companhia e por terem compartilhado comigo essa experiência. E viva o rebolation

bdnt 1.png

 

karol
Karolina Bergamo, 24, jornalista quase-especializada em jornalismo científico por força do destino e agora do gostar. Faz uns frilas para a revista Saúde e é bolsista da FAPESP com projeto de pesquisa em jornalismo científico no Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática, na USP.
Anúncios

Um comentário

  1. Adorei o BDNT. Nunca tinha ouvido falar, achei um projeto incrível. Me fez pensar no tanto que a sociedade ainda objetifica a mulher. Explico: ninguém ler as palavras bunda e rebolar na mesma frase sem imaginar uma típica bonitona das bandas de axé dos anos 90 (triste, né?) e seu texto me fez entender que são garotas, se unindo, se descobrindo e rebolando, simplesmente. Beijos.

    Curtir

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s