Crônica: Mas eu não quero ir embora

por Natália Martins | imagem de capa: Nick Lepard

Mas eu não quero ir embora. Com todos os móveis empacotados em caixas de papelão e minha irmã gritando pela casa. Me segurando pelo ombro contra a parede dizendo pra eu pelo amor de deus me mexer. O apartamento amanheceu com cheiro de choro e vômito. Um útero. O abajur quebrou quando joguei na parede, não lembro do momento exato. Tenho que mandar consertar. Acho que cortaram a luz. Não tem problema, tá esfriando, a televisão tá ruim, não tem nenhum programa que preste, o mundo já é feio o suficiente da minha janela, eu não ligo, ó, não foi uma reclamação, não. Mas no gás eu vou dar um jeito. Tem uma infiltração no meu quarto. Mas eu não quero ir embora.

Parece que meu estômago decidiu sediar a copa do mundo. Já sentiu isso? Quando de repente uma manada de búfalos invade as entranhas e brinca de pular corda com seu intestino?

Não sei como essas coisas acontecem. De repente a gente olha pro lado e encontra cinco tipos de boleto amontoados na cabeceira. Te juro que sei trigonometria até hoje, mas não faço ideia de como meu cinto foi parar no microondas. E nem por que eu passei dezoito minutos olhando fixamente pro cinto dentro do microondas me questionando como a vida chegou nesse ponto. Quando consegui a vaga de gerente com salário estável + carteira assinada + benefícios eu jurava que tinha destravado o chefão das fases. Pela terceira vez. Naquele ano. Tava ali ó, na minha cara. É nesse período que você se dedica emocionalmente pra dar pro mesmo cara a vida inteira e parir um bebê com os genes de sudorese dele. Achando lindo.

Agora são 9:53 da manhã e tem 4 pessoas no meu apartamento vazio. Falando estridente, exagerando nos passos. Ninguém te avisa. Meu cacto morreu. Isso, assim, morreu. Seco. Sem dar aviso prévio, cheguei em casa e encontrei o elemento falecido no vaso. Quer dizer, você se esfarrapa de trabalhar, pega um trânsito do cacete pra chegar em casa peganhenta e encontrar um defunto na sala. E uma embalagem de danone suja esquecida em cima da máquina de lavar. E o silêncio gutural de quem tá seguindo o roteiro. Mas eu não quero ir embora.

A louça tá suja, o edredom tá furado, os livros cheiram a mofo e os móveis carinhosamente pré fabricados parecem expressar mais apatia do que o rivotril sublingual guardado na minha bolsa. Cada canto da sala de jantar abafando uma memória. Era pra ser desse jeito? Minha mãe disse que não. Tenho a intuição de que se tivesse combinado as toalhas de rosto com as de banho as coisas teriam sido diferentes.

Só que as 4 pessoas a mais no apartamento balbuciando estridentes com meu nome na boca. E eu trancada no banheiro com o dedo na goela pra tentar vomitar o vazio do que eu não comi. Fingindo que não tô escutando. Me enxergando nas tantas vezes ajoelhada na frente do vaso mais triste do mundo. De madrugada. Completamente patética chorando abraçada nos joelhos. Procurando alguma porra de sentido do medo naquela mancha amarelada que tem no azulejo.

No espelho, a resposta.

Por algum motivo o roxo no pescoço me deixa questionando como é que uma pessoa com tanto certificado organizado alfabeticamente pode ser tão completamente estúpida. Porra, eu só queria me sentir amada. Só queria gastar gasolina indo ao cinema, só queria no dia seguinte lavar no banho minha calcinha molhada de tesão, queria negociar a existência de vida fora da terra com alguém que se importasse com minhas crises de prisão de ventre. Os desgraçados me vendem isso a vida inteira e eu compro sorrindo, ó lá a otária, comentando com as amigas. Quando chega minha vez deixam na mão do mundo. É assim. Não tem cronograma capilar que salve, não existe ser humano sem agrotóxico pra gente escolher quando te cobram companhia pra ser cumprimentada nas reuniões de família sem perguntas acusativas.

Às vezes você cai nessa história de que tem que se agarrar na primeira oportunidade de estabilidade afetiva que aparece sem camisa na sua cama e termina recusando todas as lacunas de probabilidades que a existência te dá. E fica se sentindo fraca, mas segura. Engessada, mas correta. Arrependida, mas conformada. Se achando moderníssima por ter um vibrador escondido na gaveta. Por ter dado uma opinião polêmica sobre prepúcios na confraternização da firma. Por adiar a gravidez até os 35 anos. É assim mesmo, a gente se engana até surgir uma marca visível e tua irmã aparecer no apartamento.

E encontrar 5 boletos amontoados.
O abajur quebrado. A infiltração no quarto. O apartamento sem luz.
O cinto dentro do microondas.
E te sacudir.
E te dar um calmante.
E te trancar no banheiro.
E ligar pra polícia.
E denunciar ele.
E chamar seus seus amigos.
E empacotar suas coisas.
Por saber que o ponto de vista da vítima carrega a culpa sentenciada pelo algoz.
Que a mordaça do refém é o próprio cativeiro.
Por isso quando eu me aliso, dói.
Mas eu não quero ir embora.

Não abandone uma mulher em um relacionamento abusivo.

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