Entrevista: Ana Guadalupe, tradutora de ‘Outros jeitos de usar a boca’

por Helô D’Angelo

Se você não conhece o livro Outros jeitos de usar a boca, da instapoeta indiana Rupi Kaur, pare tudo o que está fazendo e vá ler os poemas tapa-na-capa que descrevem perfeitamente o que é ser mulher.  Este post espera.

É que não dá para falar da poesia de Rupi sem ter lido seus versos que derramam dor, amor, cura e feminismo. Tipo, olha isso: “Quero pedir desculpa a todas as mulheres/ que descrevi como bonitas/ antes de dizer inteligentes ou corajosas./ Fico triste por ter falado como se algo tão simples/ como aquilo que nasceu com você/ fosse seu maior orgulho/ quando seu espírito já despedaçou montanhas/ de agora em diante, vou dizer coisas como/ você é forte/ ou/ você é incrível/  Não porque eu não te ache bonita/ mas porque você é muito mais que isso.”. Pois é, eu avisei.

Mas talvez tão especial quanto escrever poesia seja traduzi-la. Por isso, conversamos com Ana Guadalupe, a poeta tradutora de Rupi Kaur que fez um trabalho lindo:

Eu, tu, elas: como você se sentiu ao ser escolhida para traduzir a Rupi? Você já acompanhava o trabalho dela?
Ana Guadalupe: Conhecia aquela foto “da menstruação” que foi deletada pelo Instagram, mas não conhecia os poemas. Senti que tinha uma grande responsabilidade nas mãos. Já tinha trabalhado com legendagem e me graduei em letras, mas esse foi o primeiro livro que traduzi. E também foi uma alegria, uma notícia maravilhosa num ano difícil.

Qual o seu poema favorito dela? Por quê?
Não sei se tenho um favorito, mas gosto muito de vários dos poemas mais longos do livro. Acho que nesses ela desenvolve as imagens e aquele ritmo da “spoken word poetry” [poesia falada, em português]. Pra citar um dos preferidos, penso no poema da página 33, “a arte de se esvaziar”.

Por que traduzir o título do livro como “outros jeitos de usar a boca”, em vez de “leite e mel”, que é o título original em inglês?
Foi uma decisão dos editores. A edição espanhola também teve o título trocado (Otras maneras de usar la boca).

Quais as maiores dificuldades na tradução de poesia, em especial da língua inglesa?
Na minha experiência com os poemas da Rupi Kaur, uma das dificuldades foi propor soluções que respeitassem a mistura que ela faz de elementos da linguagem culta e de marcas da fala. É uma característica que parece muito natural na escrita dela em inglês e que tentei trazer para a tradução sem cair no exagero.

Você também é poeta. Em que pontos sua poesia se aproxima da obra de Rupi? E em que pontos ela é diferente?
Temos em comum o interesse pelo trauma, pelo desconforto. Mas vejo que ela faz isso de forma explícita e livre de ironia, e por isso mais corajosa ainda, enquanto eu recorro ao humor e ao pessimismo. Tem outras semelhanças, claro, como o verso livre e uma certa simplicidade. E ela fala do ponto de vista feminino e do feminismo com uma confiança e uma generosidade que eu gostaria de ter na minha poesia.

Você acha que ser poeta facilita ou dificulta na tradução de poemas? pode acontecer um impasse artístico? Houve algum impasse com a autora?
Acho que facilita, mas não sei. Quem escreve poesia talvez tenha uma visão mais clara dos “mecanismos” de um poema. Não houve impasse artístico, mas fiquei pensando um bom tempo sobre essa pergunta. Acho que pode acontecer, nenhuma poeta escreve igual a outra. Mas não sei se é saudável traduzir o trabalho de outra pessoa com a sua própria voz tão presente.

Em tempos como esses, de retorno ao conservadorismo, como a poesia pode ajudar a libertar o pensamento?
Acho que a poesia, em especial, tem esse olhar de inquietação com a linguagem e com a interpretação das coisas. Não é a resposta pronta. Acho que ler poesia pode ser uma busca por outras respostas nesses tempos assustadores.

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Helô D’Angelo, 22 anos na cara e fazendo o que pode para viver do que ama: desenho e escrita. Saiba mais sobre ela em seu portfolio: helodangelo.wixsite.com/portfolio
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