A solidão da mulher negra

por Jéssica Rosa

Eu sou mulher e sou negra. Desde que eu sou muito nova eu sei disso. Ainda que eu negasse, ainda que eu dissesse “negra não, morena” eu sempre soube. Preta. Desde que nasci. Até o dia que morrer. A solidão da mulher negra. Nome bonito, né? Parece até título de tese, livro sei lá. Tá gravada na minha pele.

Minha família materna é branca. Todas minhas melhores amigas até hoje? Brancas. A maior parte dos meus namorados? Brancos. A maioria esmagadora dos meus professores? Adivinha? Eu sempre estive sozinha. A dor de ser sexualizada e ridicularizada eu não tive pra quem contar.

Nina Simone, uma das maiores cantoras do século XX, era adorada pela mídia apesar de ser considerada feia – claro, por ser negra (nota da editora)

As pessoas brancas não gostam de ouvir sobre isso. Se sentem constrangidas. A vontade delas é sair correndo. Então eu me calei. Quando meu primeiro amor me humilhou pela primeira vez eu não achei que era pela cor. Quando ele me humilhou pela última eu tive certeza. Trocada inúmeras vezes por brancas. Esquecida. A negação de me chamar de preta. Ainda dói.

Ser preta é uma descoberta. Mas tá sempre lá. Ninguém quer falar disso, mas tá. Como contar pra uma amiga que sofre com algo se ela sempre vai dizer que sofre também? Eu sei, miga. Eu sei que você sofre. Mas você é magra. Sua sexualidade dá pra esconder. Você é bonita. Minha cor tá estampada. É isso que as pessoas veem quando me olham. Preta. Resquício de um passado que querem esquecer.

Querem esquecer que me estupraram. Que me silenciaram. Que me apagaram. Não consigo falar com meus amigos pretos também. Não é igual. Eles não sabem o que dizer. Constrange. Aí eu me calo. Quando eu vejo minhas amigas reclamando que estão gordas, usando manequim 40, desisto de contar minha dor. Elas não conseguem nem perceber isso. Nunca perceberão. Nunca saberão me ouvir e se sensibilizar de verdade. Eu vou chorar e sentir vergonha.

É. Melhor não. Eu tô é sozinha. Sozinha porque na universidade quase não tem preta. Sozinha porque na escola minhas amigas não eram pretas. Tô sozinha na minha família e nos meus relacionamentos. A solidão da mulher negra é mais que um não conseguir transar com o crush. É sentir uma dor que sufoca a garganta e não me deixa dormir. A verdade é que a gente só quer dormir pra sempre e só acordar quando a dor passar. Quando o mundo for mais fácil. A solidão da mulher negra é estar completamente só. E é assim que eu tô hoje.

Eu tô completamente só quando me escondem, quando não ouvem o que eu falo, ou dizem que não importa tanto, porque não é um problema só meu: “é de classe, é de gênero” NÃO É.

Parem e ouçam que não é!

A solidão da mulher negra é não conseguir falar que a gente não aguenta mais ser forte, porque é foda ter que ir na cadeia visitar nossos filhos, escolhidos a dedo para serem presos, enquanto os seus irmãos bêbados atropelam gente, matam, mas continuam por aí, porque seu pai é doutor.

A solidão da mulher negra é se olhar no espelho e ficar com medo de dizer que é bonita.

Falar de solidão da mulher negra é falar de sistema prisional, de genocídio da população negra, de creche, de carinho, de amor, de corpo, de mulher. A solidão da mulher negra é estar completamente só com o mundo nas costas, o medo de não estar lá pela revolução, pelos pais, pelos parceiros e pelos amigos. A gente é forte, né? A gente aguenta.

A gente aguenta.

A gente não aguenta mais.

Eu não sou mito.

Eu sou gente.

Gente preta querendo atenção, carinho, abraço e ouvido.

A gente é gente.

Mulher

Preta.

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Jéssica Rosa tem 19 anos, é estudante de história da Unicamp e feminista negra. Tem interesse pela história da África contemporânea e pelo movimento negro no Brasil do século XX.
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