Responsabilidade Emocional

por Raquel Abe

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

O escritor Antoine de Saint-Exupéry se eternizou através do livro “O pequeno príncipe”, publicado em 1943. É um dos livros mais traduzidos e vendidos até hoje. E a frase do mesmo livro, que colei acima, é uma das mais repetidas e difundidas. Especialmente quando falamos de amor.

Você provavelmente concorda com a frase, não é? Afinal, estamos num blog feminista, num post com o título de “responsabilidade emocional” e você deve ter vindo aqui pra ler que as pessoas têm que ter responsabilidade sobre os sentimentos que despertam nas outras. Mas eu não concordo com isso. Não completamente, ao menos.

O que as pessoas chamam de responsabilidade emocional, eu costumo chamar de demonstração de consideração. Justamente porque não concordo com o termo responsabilidade. Responsabilidade, pra mim, é pagar boleto. É lavar a louça. Responsabilidade, pra mim, é obrigação: é uma imposição da realidade que faz com que as coisas que eu quero não aconteçam sem um custo. Se eu quero uma pia limpa e uma casa arrumada, eu tenho a responsabilidade de fazer com que isso aconteça. Se eu quero ter dinheiro para comprar um sapato novo, eu preciso trabalhar para pagar por ele – ou enfrentar o peso de uma dívida ou de ter uma pia suja, mesmo.

Ser honesto com outra pessoa sobre o que se quer (ou não) não é responsabilidade emocional. É só bom senso e consideração.

Responsabilidade emocional é lidar com meus próprios sentimentos ao saber que as coisas não vão acontecer da forma que eu desejo. Responsabilidade emocional é não cultivar um sentimento de dependência sobre outra pessoa, por mais que eu queira, porque a outra pessoa não tem que ter responsabilidade sobre mim e sobre o que eu sinto. Esse poder é somente meu.

Não concorda comigo? Então tá.

Quantos amigos você tem no seu facebook? 300, 600, 900? E você vai me dizer que você é ativamente responsável pelo que todas essas pessoas sentem? E que você tem 300, 600, 900 pessoas com os seus sentimentos nas mãos delas? Isso não faz sentido.

Seu sentimentos são somente seus.

E não, você não tem controle sobre eles.

Sabe sobre o que você pode ter controle?

Sobre como você reage aos seus próprios sentimentos. Sobre o que fazer quando eles surgem. E ter esse controle é sua responsabilidade. E, no caso dos sentimentos que chamamos de negativos, é sua responsabilidade fazer algo para que eles não apareçam novamente. A responsabilidade de se cuidar para que “a pia do seu coração” não fique suja é somente sua. Porque seu corpo e sua mente são as únicas coisas que estarão com você até o fim dos seus dias. Para o bem ou para o mal.

“Mas essa pessoa sempre me machuca e ela tem que me machucar menos”

Concordo. Mas você também tem que dar seus passos para não se machucar. Imagine que você é uma jardineira que interage com uma rosa pela primeira vez. Você, por desconhecimento, se fere nos seus espinhos e demora alguns dias para cicatrizar a ferida. A segunda vez que você interagir com uma rosa provavelmente usaria luvas, não? Ou evitaria interagir com ela, ou tomaria um cuidado redobrado.

Você não pode cobrar que a rosa não tenha espinhos. Isso não está no seu controle.

Seguimos nossas vidas responsabilizando as rosas por nossas feridas. Mas um jardim pode ter dezenas de flores que não nos machucam e seguimos escolhendo rosas para nos rodear.

Pessoas também tem espinhos. Algumas mais, outras menos. Algumas pessoas possuem espinhos que abrem feridas muito mais demoradas para cicatrizar do que outras. E quando nos ferimos, não podemos fazer nada para mudar a rosa. Só podemos cortá-la, tirá-la do nosso jardim e cuidar das feridas restantes, até tomarmos a coragem de plantar novas flores (ou deixá-las crescerem livremente à nossa volta).

E quanto à rosa?

Que ela aprenda a controlar seus espinhos por si só. E essa é a responsabilidade que ela tem consigo mesma, se quiser fazer parte de um jardim. Em relação à mim, só espero que ela mostre seus espinhos já no início, para me permitir levar minhas luvas. E quanto à frase que iniciou o texto, uma pequena observação:

Cativar: Verbo Transitivo Direto, Bitransitivo e Pronominal. Ficar ou permanecer cativo (perder a liberdade); estar preso (fisicamente ou moralmente); sujeitar-se;

Eu não quero estar e nem manter ninguém em cativeiro – prefiro as flores que crescem livres à minha volta. Sou cativa apenas de mim mesma e dos meus desejos e é somente à mim que devo responsabilidades, não às pessoas que me circulam. A elas, apenas mostro minha consideração e meus espinhos.

 

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Raquel Abe está num relacionamento complicado consigo mesma há 28 anos, curte hackear receitas e quando da na telha escreve umas besteiras pra tentar se encontrar.

 

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