Machismo no ambiente de trabalho: reconheça e lute contra

por Helô D’Angelo

O machismo existe em qualquer lugar, é verdade. Mas há lugares em que ele é tão disfarçado, tão coberto pelo cavalheirismo e acobertado pelo sistema, que fica difícil perceber e agir na hora – até porque muitas vezes a vítima fica confusa, em dúvida se sofreu machismo ou não. Só essa dúvida já é terrível, claro. Porém, quando o ambiente em que rola o sexismo é o profissional, a coisa fica feia pra valer. Afinal, seu emprego também pode estar em risco.

Por isso, é importante estar sempre atenta, para chamar atenção de quem reproduz esse tipo de comportamento ou saber que providências tomar. Pensando nisso, separei algumas das situações mais comuns de machismo no ambiente de trabalho e suas possíveis soluções práticas:

Situação machista 1: alimentar estereótipos sobre mulheres
Como é: dizer que mulheres são menos racionais que homens, que são fofoqueiras/ competitivas, que não dá para trabalhar com mulheres, que somos bagunceiras, barraqueiras, que estamos sempre na TPM…
Qual é o problema: esse tipo de ação diminui as mulheres, generaliza e só contribui para criar um ambiente de tensão cada vez maior entre sexos no ambiente profissional.
Como lidar: se você ouvir alguém falando esse tipo de coisa, mesmo que não seja contra você, questione. Um bom jeito de quebrar essa lógica pode ser dar exemplos de mulheres incríveis que você conhece e que não são assim (um dos exemplos pode ser você), ou apontar homens que tenham algumas dessas características ditas femininas.

Situação machista 2: fazer piadinhas sexistas
Como é: brincar com temas como estupro e violência doméstica, fazer piada sobre a capacidade intelectual das colegas mulheres, dizer coisas como “volta pra cozinha”
Qual o problema: parecem brincadeiras inocentes, mas esse tipo de atitude cria um abismo imenso entre o “clubinho dos homens” – os que fazem as piadas – e mulheres, alvos das piadas. Desnecessário, pra não dizer chato.
Como lidar: não dê risada, para não dar corda. Fique com a cara séria e, se possível, diga que não achou graça e que, aliás, achou a brincadeira bem chata. Mencione também que você jamais faria piadas desse tipo sobre homens. Você não é obrigada a sorrir quando pisam em você.

Situação machista 3: estimular disputas entre mulheres
Como é: colocar uma mulher contra a outra, seja por meio de fofocas, seja diretamente, dizendo que uma é melhor que a outra em determinadas tarefas, seja por causa de um homem.
Qual o problema: se num time de futebol os jogadores começarem a brigar entre si, como é que eles podem trabalhar como equipe para tentar um gol? É a mesma coisa com integrantes de uma mesma equipe de trabalho – independente do gênero.
Como lidar: sendo mulher, é fácil se colocar contra outra mulher porque fomos todas criadas para competir umas com as outras. Em vez disso, tente conhecer a outra e ficar amiga dela: dizem que ela é uma vagabunda? Vá lá e tente conversar com ela sobre isso. Dizem que ela é mandona? Vá lá e tire a dúvida. Dizem que ela é chata? Vá lá e pergunte a ela. Você só tem a ganhar.

Situação machista 4: achar que mulheres são insuficientes
Como é: “Não me leve a mal”, diz o chefe, “mas sinto que o fulano, por ser homem, é a melhor escolha para este trabalho, mesmo que você seja a especialista nessa coisa”
Qual o problema: pode até ser que fulano seja mais apto a fazer o tal trabalho. Mas achar que ele é mais apto apenas por ser homem é balela: mulheres são tão capazes quanto homens, não importa a função. Isso varia de pessoa para pessoa, e não de gênero para gênero.
Como lidar: Anote todas as vezes que seu chefe preferir homens em vez de mulheres. Assim, quando você for reclamar e ele pedir um exemplo, você não vai titubear e poderá jogar na cara dele todas as vezes em que foi preterida.

Situação machista 5: espalhar boatos sobre mulheres
Como é: fofocar sobre a fulana porque ela ficou com alguém na festa da firma, espalhar mentiras (ou verdades) que não têm nada a ver com o trabalho, invadir a vida pessoal da mulher, criar boatos sobre questões profissionais.
Qual o problema: em um ambiente profissional, espera-se que as pessoas sejam maduras o suficiente para não espalhar boatos sobre ninguém, seja a pessoa homem ou mulher. O problema é que, geralmente, boatos sobre mulheres têm cunho sexual – e todos sabemos como a sociedade vê mulheres que são bem resolvidas com sua sexualidade: putas. Em outras palavras, sua fofoquinha pode levar uma colega à demissão.
Como lidar: às vezes, dá para tentar descobrir a fonte da fofoca e conversar diretamente com a pessoa, pedindo que ela pare de espalhar boatos. Mas o mais comum é que a pessoa negue ou esteja nem aí para você – nesse caso, é importante pedir ajuda do RH (se existir).

Situação machista 6: infantilizar mulheres/ homexplicar
Como é: tratar mulheres como se elas fossem incapazes de fazer/ compreender qualquer coisa por si mesmas – exatamente como costumamos tratar crianças.
Qual o problema: mulheres não são crianças. Somos completamente capazes de fazer e compreender as mesmas coisas que nossos colegas homens, e ignorar isso é extremamente machista.
Como lidar: esse tipo de machismo é difícil de combater porque pode ser camuflado facilmente como gentileza. Por isso, é bom ficar esperta: assim que sentir que está sendo tratada como criança (ou de forma diferente dos demais colegas), diga que você não precisa desse tipo de tratamento. Insista que você pode entender e fazer qualquer coisa, que não precisa de um “pai” que te explique o mundo e que te ajude com tudo, 100% do tempo. Use frases como “obrigada pela ajuda, mas eu posso resolver isso sozinha” ou “não precisa se incomodar, eu estudei para isso”.

Situação machista 7: hominterromper
Como é: uma colega está no meio de uma frase e o homem, achando que explicaria melhor, corta a linha de raciocínio dela e começa a falar nas próprias palavras.
Qual o problema: assim como a situação machista 6, interromper uma mulher revela que o homem tem tão pouco respeito pela fala dela e tanto apreço pela dele que não suporta vê-la falar de algo que na visão dele, ele saberia articular muito melhor.
Como lidar: assim que for interrompida, reclame. Na lata, diga “você está me interrompendo. Posso acabar de falar, por favor?”. Geralmente, os caras hominterrompem sem querer, por uma questão de costume, e quando apontamos isso eles percebem e deixam a gente falar. Agora, se ele for um babaca que continue falando sem prestar atenção à sua reclamação, faça o seguinte: reclame algumas vezes, aí deixe ele acabar de falar e volte ao seu raciocínio original dizendo algo como “bem, como eu estava dizendo antes de ser interrompida…”. Isso deve ser o suficiente para deixar o fulano com cara de tacho.

Situação machista 8: tratar a maternidade, a gravidez e outras partes do ciclo menstrual como doenças
Como é: deixar de contratar uma mulher porque ela pode engravidar, “acusar” mulheres de “estar na TPM”, achar que mães são incapazes de trabalhar, ser contra licença maternidade, achar que mulheres são obrigadas a ter filhos…
Qual o problema: o ciclo menstrual faz parte da vida de qualquer mulher, e a maternidade é parte importante da vida de algumas mulheres. Nem uma coisa nem outra muda nossa capacidade produtiva – a não ser, claro, quando precisamos parir ou quando estamos com cólicas infernais, mas até pouco tempo antes e até depois disso podemos trabalhar normalmente. Acreditar que mulheres são seres irracionais movidos apenas pelos hormônios é realmente machista.
Como lidar: uma coisa que deixa os homens sem fala é responder a esse tipo de baboseira com uma explicação detalhada sobre ciclo menstrual ou maternidade. Por exemplo: o cara pergunta se você está “na TPM” e você responde algo como “na verdade, estou no meu período ovulatório, o que significa que meu corpo está lançando um dos meus óvulos para o meu útero afim de que ele seja fecundado. Por isso estou com secreções com cheiro forte e minha pele não está lá essas coisas. A TPM ainda vai demorar pelo menos uma semana e meia para chegar, mas se você quiser eu posso te deixar informado sobre quando meu corpo vai se preparar para liberar um enorme coágulo de sangue pela minha cavidade vaginal, já que você se preocupa tanto”.

Situação machista 11: ligar mais para a aparência que para o trabalho da mulher
Como é: cobrar que as mulheres estejam maquiadas e arrumadas, fazer piadinha sobre a cara de cansada ou a acne da mulher, tecer comentários sobre roupas amassadas/ com alguma mancha, apontar o cabelo bagunçado…
Qual o problema: homens não precisam se preocupar com maquiagem, com o cabelo bagunçado, com salto quebrado, com olheiras aparentes. A única preocupação de um homem no trabalho é trabalhar. Então, por que para as mulheres deveria ser diferente?
Como lidar: dê respostas atravessadas. Mesmo. Para a pergunta “esqueceu a chapinha?”, responda “é que eu vou raspar o cabelo hoje”; para “que cara de doente”, responda “é que eu estou com uma semana de vida”, para “você podia estar mais arrumadinha, mande um “você também”. Ninguém é obrigada, né?

Situação machista 12: assédio sexual
Como é: toques não consentidos, frases ambíguas, brincadeiras e piadas de cunho sexual, flertes em momentos inadequados, não respeitar o espaço pessoal da mulher, fazer de tudo para estar a sós com ela mesmo que ela claramente não esteja afim.
Qual o problema: não existe situação mais desconfortável num ambiente de trabalho que o assédio sexual, mesmo em suas formas mais disfarçadas e “”leves””. Quando uma mulher é assediada, ela se sente como um pedaço de carne; como uma coisa, e não como a profissional que, assim como o assediador, tem todo o direito de estar naquele ambiente sem precisar ser abusada.
Como lidar: primeiro, lembre-se de que a culpa não é sua; é do assediador, sempre. Converse com colegas mulheres, para gerar uma rede de vítimas e/ou de apoio – assim, você não se sentirá tão sozinha. Se puder, diga com todas as letras para o assediador que ficar com ele não te interessa, que você está ali para trabalhar e que gostaria de ser respeitada. Se tiver como, e se você se sentir segura para isso, denuncie o cara para o RH ou para seus superiores. Se for um caso que envolva abusos físicos e/ou estupro, pode ser uma boa visitar uma delegacia da mulher e entregar o cara para a polícia.

Observação: é importante lembrar que essas são apenas as situações de micromachismo – ou seja, aquelas que são mais comuns e mais socialmente aceitas, justamente por serem encaradas como “apenas uma brincadeira” ou algo “normal”. Se você sentir que a coisa está ficando pesada demais para carregar sozinha, não hesite em falar com o RH da empresa onde você trabalha, em reclamar com os patrões ou, se for o caso, procurar assistência legal – ou até denunciar na delegacia da mulher.

15966177_1571904572823800_4393172757057007263_n
Helô D’Angelo, 22 anos na cara e fazendo o que pode para viver do que ama: desenho e escrita. Saiba mais sobre ela em seu portfolio: helodangelo.wixsite.com/portfolio

 

Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s