Ninguém te avisa que vai ser difícil pra c*ralho

por Natália Martins

Aos 23 anos eu jurava que estaria levando a vida da jovem mulher moderna bem sucedida que a GNT vendeu. Sentada no meu sofá verde chartreuse, tomando um bordeaux que ganhei de presente dos meus vizinhos de porta com quem mantenho uma ótima relação de respeito. Talvez pensando em ter filhos. Talvez arrasando com as pernas naturalmente bronzeadas aos sábados. Talvez andando de bicicleta pela orla da Barra da Tijuca aos domingos.

A realidade se resume ao meu corpo esparramado na cama com o pijama de feira furado que minha tia me deu no natal de 2012. E o sofá de casa com 50 tons de manchas que eu já não sei mais dizer a cor. Meu pai juntou toda a poeira que a vizinha varre pra nossa casa e foi lá jogar na porta dela. O síndico se meteu e a única garrafa de vinho que você vai ver nessa história terminou quebrada na cabeça do Valnei, que nem tinha nada a ver com a briga.

Quem foi o desgraçado que disse em que ponto da vida a gente tem que estar com determinada idade? Sério, me passa o nome desse pau mole do caralho. Eu quero falar com o RH.

Ninguém te avisa que vai ser difícil pra caralho. Nem que você vai chorar sentada na privada no banheiro do trabalho porque ainda não conseguiu terminar o fichamento da faculdade. Nem que você pode perder o emprego. E a faculdade. Ao mesmo tempo. Ninguém avisa que a vida está fora do controle que te conecta com a realidade higienizada do jovem casal que come food truck vegan na GNT. Dói mais um bocado.

Existem dez milhões de embustes na minha lista de contatos de foda meia boca pro final de semana que eu nem uso mais. E três boletos atrasados escondidos no fundo da gaveta que é pr’eu não lembrar que deixei atrasar de novo o pagamento desse mês. Tenho tomado tarja preta pra dormir antes de repassar constrangimentos pessoais na minha mente e ignorado notificações de rede social porque não, eu não consigo tirar fotos esteticamente admiráveis fingido que não tô vendo a porra de uma câmera focada na minha cara.

Pausa pra respirar.

Também não consigo jogar as duas pernas atrás da cabeça em uma pose de yoga avançada. Meu cabelo é cheio de frizz – e olha que já desembolsei uma boa quantia em cremes acessíveis de supermercado pra tentar controlar, mas continua a mesma coisa. Não sou boa em piadas, tenho poucos amigos e uma quantidade inexplicável de notas fiscais perdidas na bolsa. E endometriose.

Ninguém te avisa que vai ser difícil pra caralho. Nem que você vai chorar sentada na privada no banheiro do trabalho porque ainda não conseguiu terminar o fichamento da faculdade.

Deixa eu te contar o seguinte: há exatamente 10 anos minha vida mudou completamente. Aos 13 me mudei de cidade, estado, colégio, cor de cabelo – tudo assim, de uma vez. Fui estuprada 4 vezes. Presenciei 3 mortes importantes. Sofri de bulimia. Me formei. Vi um homem ser morto a tiros da janela da primeira escola onde dei aula. Fui demitida por questões religiosas. Recebi repúdio severo pela minha escrita. Saí da igreja. Enfiei uma tesoura cega na minha perna inúmeras vezes pra me ver sangrar até parar de doer. Cortei meu próprio cabelo em crises de pânico. Vi um vendedor de taboca ser arrastado por um ônibus. Perdi amizades pro silêncio. Achei que ia morrer.

E dez anos depois do início dessa confusão eu tô aqui, decepcionadíssima com a promessa de futuro que me foi feita. Com Michel Temer no poder. Usando um sapato que me custou 2 reais em brechó evangélico. Tomando uma dose de tequila em dia de semana com o celular desligado. Puta. Quem foi o desgraçado que disse em que ponto da vida a gente tem que estar com determinada idade? Sério, me passa o nome desse pau mole do caralho. Eu quero falar com o RH.

Como é que me fizeram acreditar que os últimos 10 anos da minha vida foram tão miseráveis que eu não tenho outra alternativa a não ser estar em pânico? Há 10 anos eu conheci meu melhor amigo, que é meu namorado hoje. Fiz trabalho voluntário por 2 semanas no interior do Piauí. Pulei de bungee jump. Viajei sozinha pra Europa. Parei de gastar horas do meu dia passando chapinha no cabelo. Aprendi a dirigir. Contornei meu pânico de fogo. Me livrei de amizades tóxicas. Dei uma palestra em uma universidade. Dei aula em uma universidade também.

Como é que me fizeram acreditar que os últimos 10 anos da minha vida foram tão miseráveis que eu não tenho outra alternativa a não ser estar em pânico?

Cacete, como é que eu fiz isso? Morri de rir até doer a barriga. Viajei com meus amigos sem um puto no bolso. Quer dizer, 11 reais – gastos na primeira manhã por um amigo que comprou bananas verdes, farinha láctea e leite em pó. Presenciei céus que pareciam chãos de estrelas. Vi a JK Rowling. Me apaixonei centenas de vezes. E percebi que é uma idiotice me considerar fracassada só porque não alcancei o padrão imposto pelo mesmo péssimo roteirista que colocou Michel Temer no poder. E me derrubei pra me construir mais minha. E ó: Temer vai cair também. Nem tudo está perdido. Daqui a 10 anos a gente vê.

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Natália Martins
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3 comentários

  1. Só uma palavra: CARALHO.
    Super me identifiquei em diversos trechos, o que, na minha concepção só reforça o fato de que nunca estaremos sozinhas nessa porra louca chamada de vida.
    Respira.
    Força Nat! A estrada é dura, não vai melhorar, mas vai deixar a gente forte.
    Como sempre, fico feliz pra porra quando leio seus textos!
    Parabéns pelo blog!!!!!!
    Bicha talentosa!
    Beijunda!

    Curtido por 1 pessoa

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