O que os homens têm a ensinar sobre relacionamentos

por Helô D’Angelo

Antes de mais nada, peço muita calma: não quero dizer aqui que devemos imitar tudo o que homens fazem ao se relacionar amorosamente. Não quero dizer que precisamos ser abusivas, agressivas ou que deveríamos ter pouco contato com os nossos sentimentos. Ou que deveríamos jogar a responsabilidade emocional, o carinho e o cuidado pela janela.

Mas tenho sentido cada vez mais que podemos aprender muito observando a forma como homens se relacionam com mulheres.

Veja bem: mulheres e homens são criados de maneiras diferentes, disso já estamos carecas de saber. Enquanto mulheres têm uma criação voltada para o lar e são encorajadas a ser cuidadosas e empáticas, homens desde muito cedo aprendem que podem ter o mundo e mais um pouco, se assim desejarem. Em outras palavras, mulheres são criadas para os outros, e homens são criados para si.

Mas não é só isso. Nossa sociedade desde muito cedo coloca na cabeça das meninas que elas devem buscar o amor verdadeiro; que devem sonhar com o casamento e esperar pelo príncipe encantado. Mais tarde, quando descobrimos que todo relacionamento tem seus problemas, somos incentivadas a nos tornarmos compreensivas, parceiras, resignadas e principalmente empáticas – porque homem é assim mesmo, desligadão, e não podemos esperar que eles tenham a capacidade de manter uma relação amorosa.

Como sentir e cuidar é coisa de mulher, é a nós que cabe, na maior parte das vezes, o fardo de manter o relacionamento, mesmo que o cara seja super legal e a gente seja super feminista. Nós precisamos ir atrás, encorajar o cara, adotar interesses semelhantes aos dele (e às vezes aguentá-lo falando mal dos nossos interesses), fazer um esforço para ser amiga dos amigos do ~boy~, ter boas relações com a família dele, entender e respeitar os processos e as angústias dele – e às vezes, deixar os nossos problemas de lado. Nós temos de abrir mão, nos encaixar à vida dele, criar toda uma rotina em cima da rotina dele. É o que se espera da gente. É o que cumprimos como uma ordem inconsciente: virar a namorada do Fulano.

Manter um relacionamento, para grande parte das mulheres, vira uma espécie de papel social, uma missão autodestrutiva que mantem milhares de mulheres em relacionamentos abusivos, violentos ou simplesmente não saudáveis, sob a bandeira do “amor verdadeiro”.

Mas para os homens, a coisa muda bastante de figura. Nas minhas andanças, tenho percebido que para eles é muito simples: se o relacionamento não está legal, se não é mais algo que traz alegria, se está minimamente negativo ou incômodo, eles caem fora. Se apaixonam por outra pessoa. Se distanciam e largam o osso. Vão comprar cigarros e não voltam mais. Ou terceirizam o abandono, tornando o relacionamento tão terrível ou monótono que a mulher não tem escolha senão, depois de muito esforço para consertar as coisas, dar no pé.

Isso porque mesmo os caras mais “feministos” sabem, no fundo do coração, que a sociedade vai entregar a eles, assim que eles quiserem, outra mulher disposta a largar tudo para se tornar a namorada do Fulano.

Isso, claro, acaba sendo cruel com as mulheres. Mas, por outro lado, também significa que eles sabem se ouvir e compreender exatamente o que querem, sem se importar muito com a reação da outra pessoa. Porque foram criados para isso.

Isso pode parecer frio, mas na verdade, no final das contas, é muito saudável. Quer dizer que não existe culpa ou medo em admitir e em realizar o seu desejo. Quer dizer que o amor próprio vem em primeiro lugar. Quer dizer que você é forte o suficiente para não cair em manipulações emocionais e não ficar onde não quer estar. Quer dizer dizer que você é independente e forte.

O que me deixa pasma é como parece impossível para nós, mulheres, fazer algo assim. Parece desumano, cruel, terrível, inconcebível – mas tenho pensado cada vez mais que essa aura de maldade cerca apenas o desejo feminino. Às mulheres que conseguem terminar um relacionamento estão reservados os comentários mais horríveis: ela não tem coração. Ela é fria como gelo. Ela é uma vagabunda, me traiu. Ela não sabe o que está fazendo e logo vai se arrepender.

O irônico é que, para os homens que dão um pé na bunda das mulheres, sempre existe uma desculpa: ele terminou um relacionamento de dez anos, mas é porque queria se encontrar. Ele traiu a namorada, mas é porque eles já não transavam há meses. Ele se apaixonou por outra, mas é porque a mulher tinha depressão. Ele saiu de casa e largou dois filhos pequenos, mas é porque queria viajar o mundo. Ele perdeu o interesse, mas, ah, você sabe como são os homens.

Ou seja: o desejo masculino é soberano. O feminino é, na melhor das hipóteses, descartável – e na pior, uma afronta.

De novo, não estou defendendo que sejamos 100% iguais aos homens, que tratemos pessoas de forma descartáveis ou que não tenhamos sentimentos. Pelo contrário: as características ditas femininas, como a empatia, o contato com os sentimentos e o cuidado, são muito especiais e úteis, e acredito que os homens poderiam aprender muito com a gente, caso se permitissem (em especial, acho que eles poderiam aprender a sofrer).

Mas me pergunto se não podemos também aprender com eles a ser um pouco mais donas de nós mesmas; a bater o pé pelo que desejamos porque conhecemos muito bem o nosso coração e a realizar, de fato, esse desejo – mesmo que seja terminar um relacionamento, se apaixonar por outra pessoa ou simplesmente estar sozinha. Me pergunto se não podemos, de alguma forma, deixar a culpa de lado; sair do pedestal de mulher para virar, simplesmente, humanas.

Não seria incrível?

15966177_1571904572823800_4393172757057007263_n
Helô D’Angelo, 23 anos na cara e fazendo o que pode para viver do que ama: desenho e escrita. Saiba mais sobre ela em seu portfolio: helodangelo.wixsite.com/portfolio
Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s