Mulheres no cinema: a importância da representatividade

por Clara Campoli

Furiosas, Uhuras, Reys: quem somos nós?
Exercício rápido: quando você era criança e jogava um videogame de luta, como Street Fighter, quem você escolhia? Eu ficava desesperada por uma personagem feminina que se parecesse um pouquinho comigo. E vejam só, eu sou uma mulher branca, heterossexual, meu sofrimento em relação a isso é ínfimo perto de outras minorias jamais representadas.

A questão é que todos nós procuramos nos identificar com alguém nas histórias que nos contam, e isso sempre foi algo problemático para quem pertence a alguma minoria política. Acredito que toda mulher se identifica com esse sentimento. Não basta cumprir “a cota”: representar mulheres, por exemplo, não é pura e simplesmente existir uma personagem feminina no enredo. É mostrar a mulher dentro de um contexto em que todas nós – ou uma parcela de nós – possa se identificar.

Para entender a questão da representação, basta citar uma história famosa: quando a pequena Whoopi Goldberg assistiu Star Trek e se viu no futuro, em vez dos papeis geralmente delegados a artistas negros. A atriz Nichelle Nichols, na pele da tenente Uhura, foi a primeira pessoa negra a aparecer em uma produção de ficção científica. Ela não era mero acessório, não aparecia como empregada ou escrava: Uhura é a comandante das comunicações da nave Enterprise, tendo responsabilidades divididas com outros homens na ponte de comando.

Foi a primeira vez que Goldberg viu uma representação de uma pessoa parecida com ela, em uma situação com a qual ela se identificou, ou na qual gostaria de estar. Não é de se estranhar que ela tenha pedido para participar da nova geração da série, no papel da bartender Guinan.

Star Trek
Uhura é a comandante das comunicações da nave Enterprise, tendo responsabilidades divididas com homens na ponte de comando

Mas não basta que a personagem se pareça com o público. E é aí que o machismo entra nos detalhes: aquela mulher forte que vimos no filme é de fato empoderada ou é apenas mais uma representação para algum tipo de fetiche? O caso clássico é a famosa, idolatrada, poderosa (será?) Lara Croft. A estrela do videogame Tomb Raider, vivida por Angelina Jolie na telona, é fantasia masculina desde 1996, quando era uma boneca de pixels, com seios triangulares, cinturinha impossível e um quadril largo. A pergunta de um milhão de dólares é: como isso favorece e empodera as mulheres?

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A estrela do videogame TombRaider, vivida por Angelina Jolie na telona, é fantasia masculina desde 1996, quando era uma boneca de pixels

Em seus estudos, Freud criou o termo “escopofilia”, usado pela teórica feminista Laura Mulvey para demonstrar a representação feminina no cinema, em especial dentro do star system de Hollywood. A grosso modo, significa ter prazer em olhar outra pessoa. Mulvey separa esse prazer em dois momentos: o primeiro, e mais imediato, é olhar para a personagem na tela e desejá-la. O segundo momento é o da identificação, ou seja, o espectador se vê no personagem que enxerga o objeto da escopofilia.

Assim, na cena em que Sr. e Sra. Smith se conhecem, no filme que leva o mesmo nome, o espectador – necessariamente um homem heterossexual como o personagem de Pitt – tem dois momentos de prazer. O primeiro é ver a personagem de Angelina Jolie dançando, mostrando o corpo para o interesse romântico, num primeiro momento fora de quadro. Em seguida, o bonitão se levanta e dança com ela, reagindo e guiando o desejo do espectador sobre o corpo daquela personagem.

Nesse contexto de poucas e pobres representações de minorias, entram personagens revolucionários, que criam reações extremamente positivas das minorias que representam. Dois casos que foram bastante aplaudidos em 2015 são Furiosa, a personagem de Charlize Theron em Mad Max, e Rey, de Daisy Riley, em Star Wars: Episódio VII. São mulheres fortes, independentes, extremamente capazes no que fazem.

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Furiosa (Charlize Theron), de Mad Max

Ao mesmo tempo, elas choram em momentos de fragilidade (quem nunca?), se desesperam para ajudar seus amigos, sofrem durante toda a jornada pela qual passam. São teimosas, desconfiadas, cabeça-dura. Todas características que as tornam extremamente humanas, passíveis de identificação por inúmeras espectadoras.

Além disso, nenhuma das duas se apresenta em um contexto voltado para o prazer masculino, o que é novidade em filmes de ação. O papel de Furiosa é ainda mais significativo dentro da luta contra o machismo: é uma deficiente física que põe tudo a perder para salvar um grupo de mulheres presas em um relacionamento abusivo. Para feministona nenhuma botar defeito.

É claro que ainda existem algumas limitações em ambas produções. Entre tantas personagens poderosíssimas de Mad Max, não temos nenhumazinha negra, o que é extremamente problemático. Em Star Wars, temos grandes personagens femininas, mas faltam mais figurantes, maior presença feminina na tela (a Rebeca Puig do Collant Sem Decote fala sobre isso aqui).

Outras produções se destacam por olhar para tudo isso. Minha série favorita, atualmente, é Orange Is The New Black. São inúmeras narrativas femininas: negras, brancas, latinas, asiáticas, jovens, idosas, mães, grávidas, gordas, magras, atletas, lésbicas, bissexuais, heterossexuais… A lista não acaba. Para citar outra série queridinha: Sense 8 tem romance gay e tem gente de todas as cores.

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Diversidade, força, humanidade, falhas e roupas que cobrem a bunda ❤

Passou da hora de sairmos da zona de conforto hollywoodiana que dita como mulheres e seus corpos devem ser representados, quais cenas de sexo e de romance devem ser apresentadas no cinema e na televisão. Que venham mais e mais filmes, séries e narrativas diversas, que incluam minorias e façam com que cada um reveja sua maneira de pensar corpos, cores e afetos.

Pra passar a régua, vou listar algumas produções que valem nossa atenção ❤

Filmes
– Mad Max: Estrada da Fúria
– Star Wars: Episódios IV, V, VI e VII
– O Piano
– Frozen
– Valente
– Star Trek (os novos filmes!)
– Kill Bill 1 e 2
– A Viagem de Chihiro
– Os Homens que não amavam as Mulheres
– Jogos Vorazes

Séries
– Orange is the new Black
– Sense 8
– Unbreakable Kimmy Schmidt
– Orphan Black
– Fringe
– Transparent (o ator principal faz uma mulher trans, mas a série dá muito espaço para outros atores transgênero representarem papéis coerentes)
– Jessica Jones
– Grace and Frankie

E você, tem alguma produção legal pra sugerir?

Clara Campoli tem 27 anos e é jornalista
Clara Campoli tem 27 anos e é jornalista
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