10 músicas empoderadoras para as minas

por Helô D’Angelo (com a ajuda das minas da internet afora!)

Não é novidade que as mulheres têm pouca voz em um mundo patriarcal. Mesmo entre as que têm certa influência, como as cantoras famosas, são poucas as que fogem de temas como o sexo heterossexual, a ode à “mulher perfeita”, o incentivo à competitividade entre mulheres ou a conquista de um homem. Ouvir mulheres cantando para mulheres, portanto, é revolucionário. Apesar de nem sempre se autodenominarem feministas, mulheres como Elza Soares, Beyoncè, Pink e tantas outras acabam passando mensagens de força: você pode ser o que quiser, você é dona do seu próprio corpo, você não precisa ser um saco de pancadas.

Vem com a gente ouvir essas músicas incríveis ❤

1. “Maria da Vila Matilde” – Elza Soares

“Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, canta Elza Soares, que, aos 78 anos, lançou o disco “Mulher do Fim do Mundo”, com canções de arrepiar qualquer uma. A faixa “Maria da Vila Matilde”, a segunda do disco, é a história de uma mulher, Maria, que apanhou do marido, mas que não deixou barato. Ela liga para o 180, denuncia o marido e diz que, se ele voltar a incomodá-la, vai jogar água fervendo e mandar o cachorro mordê-lo na frente dos vizinhos. Elza vai ainda mais longe e questiona a figura da mãe como um ser perfeito, dizendo que vai esperar a mãe do agressor ligar para “caprichar no esculacho”. Com sua linguagem crua e seu humor ácido, “Maria da Vila Matilde” vai muito além do feminismo academicista que domina as redes sociais: é uma canção sobre a força que as mulheres precisam encontrar dentro de si para se livrar de relacionamentos abusivos – o que é extremamente difícil em uma sociedade que insiste que as mulheres só são completas com um homem, mesmo que ele seja “um pouco violento”.

2. “Bad Reputation” – Joan Jett

Não dá para deixar Joan Jett de fora de qualquer playlist sobre a força das mulheres. Ela foi a fundadora da The Runaways, uma banda formada apenas por garotas em uma época em que os homens dominavam (ainda mais) o cenário do rock. Jett também foi considerada pela Rolling Stone uma das melhores guitarristas de todos os tempos – sendo que, na lista, só havia ela e Joni Mitchell de mulheres, entre dezenas de homens. “Bad Reputation” é uma pesada crítica à noção de “reputação” – aquela velha história de “o-que-as-pessoas-vão-pensar-se-você-fizer-isso”. Jett canta: “Eu não ligo a mínima para a minha má reputação/ Você vive no passado, é uma nova geração/ Uma garota pode fazer o que ela quiser fazer/ E é isso que eu vou fazer”. Parece um refrão da Beyoncè, não é? Mas “Bad Reputation” foi escrita em 1981, dois anos antes de “Girls Just Want to Have Fun”, da Cindi Lauper (uma música que fala que as garotas “só querem se divertir”).

3. “Selvática” – Karina Buhr

Karina Buhr já merece estar na lista só por mostrar os seios de forma totalmente dissociada do sexo explorador e machista na capa de seu disco. Ela esfrega a sexualização das mamas na cara do patriarcado, como quem diz “vocês querem peitos? Então, olha aqui. Mas atenção: eu tenho uma faca afiada nas mãos e posso cortar com ela o que eu quiser“. E a canção “Selvática” é isso mesmo: é um manifesto barulhento e nada gracioso em forma de provocação. É como grita Karina, no final da música: “E no final ideal não terás domínio sobre mulher alguma!/ No final ideal não terás domínio sobre mulher alguma!”.

4. “Run the World” – Beyoncè

Não há dúvidas de que a Beyoncè é uma voz importante do feminismo atual. Ela usa seu papel de “diva do pop” para espalhar mensagens empoderadoras que vão desde o “homens não são insubstituíveis” até o “mulheres lideram o mundo”. São várias as músicas da cantora que tratam do tema, mas foi “Run The World” que colocou Beyoncè no radar feminista e a lançou no mercado como a diva da terceira onda do movimento. Não é para menos: a canção repete “Quem comanda o mundo?/ Garotas!”, e Beyoncè dedica cada verso a uma mulher diferente, mostrando a força de cada uma.

5. “Rebel Girl” –  Bikini Kill

Impossível falar de feminismo contemporâneo e não citar Bikini Kill. Essa banda foi formada em 1990, e é considerada a primeira do movimento Riot Grrrl – uma onda cultural de zines, eventos e muita música que buscava informar a mulher sobre os seus direitos. A Bikini Kill tinha músicas com um discurso feminista radical, e misturavam o conteúdo explosivo a uma forma bastante incendiária de se apresentar. “Rebel Girl”, especificamente, é uma música sobre garotas que amam garotas – seja sexualmente, seja na forma da sororidade, ou o não-ódio entre mulheres: “Te amo como uma irmã, sempre uma irmã, garota rebelde/ Me deixe ser sua melhor amiga, seja minha garota rebelde”.

6. “Tombei” – Karol Conká

Karol Conká incomoda. Claro: ela é uma mulher negra empoderada, que esbanja orgulho por ser quem é e que não leva desaforo para casa. E isso, em uma sociedade racista e machista, é muito feio. Imagine só, uma mulher negra dizendo “Quando mamacita fala, vagabundo senta”?  Ou então “Peguei sua opinião, um, dois, pisei”? Não precisa imaginar: Karol fala tudo isso em “Tombei” e ainda bate de frente com qualquer crítica rasa, dizendo: “Causando um tombamento/ Também tô carregada de argumento/ Seu discurso não convence, só lamento/ Segura a onda, se não ficará ao relento”. Já que é pra tombar…

7. “I Don’t Need a Man” – The Pussycat Dolls

As Pussycat Dolls são famosas por músicas como “Don’t Cha” (que fala de mulheres competindo umas com as outras pela atenção de homens) e “Stickwitu” (que romantiza um relacionamento abusivo). Mas, tirando a hipersexualização e a confirmação de estereótipos de gênero mostrados no clipe, a música “I Don’t Need a Man” traz uma mensagem muito positiva em termos de feminismo prático. Ela diz: “Eu não preciso de um homem para fazer acontecer/ Eu sinto prazer em ser livre/ Não preciso de um homem para me fazer sentir bem/ Eu me satisfaço fazendo do meu jeito/ Não preciso de uma aliança no dedo/ Para me fazer sentir completa”. Para as Pussycat Dolls, dizer essas coisas é revolucionário, já que todas as outras músicas do grupo são, basicamente, sobre conquistar/ esquecer/ amar/ provocar homens e competir com mulheres.

8. “Survivor” – Destiny’s Child

“Agora que você saiu da minha vida, eu estou muito melhor”, começa a música. E o resto da canção é uma colagem de confirmações do quanto isso é verdade: “Você pensou que eu estaria mais fraca sem você, mas eu estou mais forte”, “Você pensou que eu não pudesse respirar sem você, mas eu estou inalando” e assim por diante. A música, que originalmente é do trio Destiny’s Child, foi regravada pela Clarice Falcão no ano passado e ganhou um clipe arrepiante, com mulheres de todas as idades, formas e cores se lambuzando em batom vermelho.

9. “U + Ur Hand” – Pink

“Eu não estou aqui para o seu entretenimento/ Você realmente não quer se meter comigo hoje/ Só pare e pense um segundo/ Eu estava bem antes de você entrar na minha vida/ Porque você sabe que acabou antes de começar”. Pink sempre foi contra a imagem da “boa moça pop” que era cultivada por artistas como Beyoncè há até pouco tempo atrás.”U + Ur Hand” é uma das primeiras canções sobre a frase “meu corpo, minhas regras”, que ficou famosa na internet depois da primeira Slutwalk (Marcha das Vadias), em 2011. Na música, Pink vai narrando diversas situações de abuso que são corriqueiras na vida das mulheres, e vai respondendo cada uma delas com base no “meu corpo, minhas regras”.

10. “Meu Namorado é Mó Otario” – MC Carol

“Meu namorado é mó otário, ele lava minhas calcinhas”. Assim começa esta música de MC Carol. Diferente de grande parte dos funks, que objetificam e hipersexualizam a mulher, criando competitividade entre as minas, “Meu Namorado É Mó Otário” fala da mulher que não tem o menor problema em ir para o baile e para a “curtição” sozinha. E se o namorado não estiver satisfeito, pode “dormir no portão”. Em entrevista, Carol disse que não tem o menor pudor: fala tudo o que lhe passa pela cabeça, canta, dança, se veste como quer. Ela também afirmou não ligar para os padrões de beleza, dizendo que a perfeição é inalcançável. E não é assim que uma mulher livre deveria pensar?

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.

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6 comentários

  1. É interessante a lista, mas vi um certo preconceito com as Pussycat Dolls. Em Don’t cha, por exemplo, a autora fala sobre a competição entre mulheres (a “oficial” percebe que o boy está a fim da outra e por isso fica rondando), porém, não aceita e manda o cara pastar; diz que entende a namorada, mas não vai ficar com ele (talvez em outra vida). Em Beep, a música fala sobre os homens só se interessarem pelo corpo das mulheres, não por seu cérebro e coração, e que ela não quer homens assim; novamente, manda o cara pastar. Em Wait a minute, ela discute com um homem que, por dar atenção e presentes não pedidos, acha que a mulher lhe deve algo em troca, e ela diz que não é assim. Em Whatcha Think About That, a autora reclama do namorado que sai sozinho enquanto ela fica em casa e diz que, agora, quem vai sair é ela e não vai voltar. Enfim, são só alguns exemplos. Elas são bem mais debochadas em relação aos homens nas músicas do que a Beyoncé, por exemplo, mas deixam de ser músicas sobre emponderamento feminino. Dar uma banana para caras nojentos não deixa de ser uma forma de emponderamento.

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    • Claro! Legal essa opinião. Mas o ponto em “Don’t Cha” é, sim, a competitividade. Não vem me dizer que é empoderador que a Nicole paquere um boy com namorada mesmo que não vá ficar com ele.

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      • Na música, ela não paquera o boy, ele que dá em cima dela e a namorada percebe (I know you like me / I know you do / That’s why whenever I come around / She’s all over you). Se um cara está a fim de nós somos automaticamente culpadas por isso? E ela ainda diz para ele jogar limpo porque a namorada certamente não quer dividi-lo (Fight the feeling / Leave it alone / ‘Cause if it ain’t love / It just ain’t enough to leave a happy home / Let’s keep it friendly /You have to play fair / See I don’t care / But I know she ain’t gonna wanna share). Por fim, diz que entende a namorada e até acha ele legal, mas não vai rolar (I know she loves you / So I understand / I probably be just as crazy about you / If you were my own man / Maybe next lifetime / Possibly / Until then, old friend, your secret is safe with me). Tem que ler a letra toda, não só o refrão.

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